Considerações sobre o Wells Report.

Resolvi começar esse texto pela conclusão do Ted Wells Report, ou seja, a investigação da NFL sobre o famigerado “deflate gate”.

Eis o que diz Ted Wells na conclusão de sua investigação:

“Baseado nas evidências em conexão com a investigação e compiladas nesse Report, nós concluímos que é mais provável do que não que o pessoal do New England Patriots participou de violações das Regras de Jogo da NFL e se envolveu em uma tentativa deliberada de driblar essas regras.”

Algumas linhas depois, continua:

“Com base nas evidencias, nós concluímos ainda que é mais provável que não que Tom Brady estava pelo menos geralmente consciente das atividades impróprias de McNally e Jastremski com relação a retirar ar das bolas dos Patriots.”

Eu poderia encerrar essa matéria aqui mesmo. O motivo? Simples.

Quando alguém responsável por investigar um suposto ilícito, após mais de 100 dias de investigações recheadas de depoimentos, documentos, entre outros, chega à conclusão de que “é mais provável que não” que as bolas foram adulteradas deliberadamente e que “é mais provável que não” que Tom Brady sabia, caso encerrado, pois simplesmente NÃO HÁ PROVAS!

Como alguém pode ser condenado pelo que quer que seja baseado num juízo de que “é mais provável que não” que tenha cometido o ilícito?

No entanto, esse não é o único problema do Wells Report, como veremos a seguir.

Vamos partir dos fatos: as bolas utilizadas pelos Patriots na final da AFC foram testadas antes do jogo, estando no limite de pressão, e no intervalo se encontravam abaixo do limite permitido pela NFL. Isso é fato, certo? Errado! Saibam que a NFL e os juízes responsáveis pelas bolas na final da AFC simplesmente NÃO REGISTRARAM A PRESSÃO DAS BOLAS ANTES DO JOGO!

Vejam o que diz o Report:

“Dos juízes da NFL não se exige, nem é prática comum registrar a pressão das bolas durante a inspeção pré-jogo. Nós nos baseamos nas lembranças de Anderson (Walt Anderson, Juiz) das medições pré-jogo feitas no dia do AFC Championship Game e baseados na confiança que Anderson demonstrou sobre as suas lembranças.”

Sério, isso está no Report.

Como uma organização do tamanho da NFL, ao investigar uma suposta quebra de suas regras sobre pressão de bolas (dados numéricos), considera como evidência as marcações que o juiz LEMBRA de ter feito? Lembra? Walt Anderson não anotou, não registrou. Ele simplesmente diz que LEMBRA do que mediu.

No Report, Anderson diz que não lembra qual tipo de medidor utilizou para aferir a pressão das bolas. Além disso, como é sabido, as bolas do jogo, sob sua tutela, simplesmente foram perdidas. Inacreditável!

Durante o intervalo, quando aparentemente sem motivo (veremos adiante) os juízes resolveram medir as bolas, constataram que várias bolas utilizadas pelos Patriots estavam abaixo do limite permitido pela NFL. No total, foram medidas 12 bolas dos Patriots.

No entanto, o que grande parte da mídia ignora e que consta no Wells Report é que bolas dos Colts também estavam abaixo do limite permitido segundo um dos medidores, medindo 12,35 psi (libras por polegada quadrada), 12,30 psi e 12,15 psi. Ocorre que apenas 4 bolas dos Colts foram medidas.

Ora, porque medir a pressão de 12 bolas dos Patriots e apenas 4 bolas dos Colts? Segundo Wells, não houve tempo para medir mais bolas dos Colts durante o intervalo da partida. Justo, não? Quem garante que as demais bolas dos Colts que não foram medidas estavam dentro dos limites de pressão permitidos?

Ora, se havia bolas dos Patriots e dos Colts abaixo do limite permitido, porque instaurar uma investigação profunda sobre se os Patriots alteraram ou não deliberadamente a pressão das bolas? Porque não investigar também os Colts, se havia também bolas deles abaixo do limite? Hão de convir que não houve imparcialidade.

A resposta talvez se encontre no fato de que não foi por acaso que os juízes resolveram começar a medir bolas no AFC Championship Game. O que ocorreu, de fato, foi uma operação montada pela NFL para tentar flagrar os Patriots utilizando bolas voluntariamente alteradas, e essa operação começou com uma denúncia feita por Ryan Grigson, general manager dos Colts, na véspera da final de conferência.

Segundo o Wells Report:

“Em 17 de janeiro de 2015, na véspera do AFC Championship Game, o general manager dos Colts Ryan Grigson enviou um e-mail para a NFL mostrando preocupação sobre a pressão do ar nas bolas utilizadas pelos Patriots.”

Assim sabemos pelo menos como tudo começou. Não com a teoria de que a bola da interceptação sofrida por Brady teria levantado suspeitas, mas porque o Indianapolis Colts havia feito a denúncia no dia anterior ao jogo.

No e-mail, Grigson anexou depoimento do gerente de equipamento dos Colts, Sean Sullivan, que mencionou o fato de que seria do conhecimento geral da liga que os funcionários dos Patriots retiravam ar das bolas, pois era assim que Tom Brady gostava. Assim, a NFL deveria investigar essa vantagem indevida que os Patriots estariam levando.

De fato, como foi bem explicado durante esses meses de investigação, a diferença de 1 ou 2 psi em uma bola é praticamente imperceptível, não acarretando vantagem alguma.

Além disso, após o intervalo, quando as bolas estariam propriamente infladas, Tom Brady simplesmente destruiu a defesa dos Colts, então cai por terra a tese de vantagem esportiva.

deflate gate - Robert Kraft
Robert Kraft ficou indignado com o modo como foram conduzidas e concluídas as investigações.

Há outro fato curioso sobre a pressão das bolas. Nas conversas entre os funcionários dos Patriots, utilizadas pela investigação, consta que os juízes inflaram bolas dos Patriots para o jogo destes contra os Jets, na semana 7, colocando as bolas em 16 psi! Trata-se de pressão acima do permitido pela NFL.

O ponto comum é que tanto com bolas supostamente abaixo do limite permitido quando como as bolas bem acima dos limites, diga-se, fornecidas pelos juízes, Tom Brady destruiu as defesas de Colts e Jets.

Por fim, se a suspeita, instigada pela denúncia de um general manager, é suficiente para submeter os Patriots ao que sofreram na semana do Super Bowl, porque não investigar também, por exemplo, Aaron Rodgers, quarterback do Green Bay Packers, que à época admitiu que infla as bolas após recebe-las da inspeção dos árbitros?

Além de Rodgers, outros quarterbacks da NFL admitiram mexer no ar das bolas de acordo com seus gostos pessoais. Assim, porque não investigar se essa manipulação está dentro dos limites permitidos pela liga?

Outro ponto interessante diz respeito ao fato de Tom Brady não ter fornecido seu telefone celular a Ted Wells para investigação. Você pode culpá-lo?

Responda sinceramente: se na semana do jogo mais importante da sua vida você fosse massacrado pela mídia, acusado de ter obtido vantagens ilícitas para vencer seus jogos, você entregaria seu telefone celular para uma investigação privada? Eu provavelmente não.

Mesmo que você entregasse, não se pode negar de que é direito de cada um decidir sobre isso.

Por fim, sobre as opiniões (sem provas, são opiniões) de Ted Wells sobre Tom Brady. Confiram a que ponto Wells chega em seu report:

“Nossas conclusões sobre Tom Brady são baseadas na análise das evidencias substanciais. As evidencias não nos permitem a concluir sobre quando McNally e Jastremski começaram seus esforços para retirar ar das bolas no dia do jogo, nem sobre exatamente por quanto tempo esses esforços vinham ocorrendo, nem sobre quão frequentemente eles ocorreram, como a ideia surgiu ou sobre as comunicações sobre esses esforços. Nós também notamos que há ainda menos evidências ligando Brady às atividades de adulteração de McNally ou Jastremski. Independentemente disso nós acreditamos que, com base na totalidade das provas, é mais provável que não que Brady tinha pelo menos uma ideia geral das atividades impróprias de McNallly e Jastremski”.

Sinceramente, não tenho palavras para descrever essas ideias e conclusões.

O investigador admite que as provas não permitem ter ideias dos detalhes da retirada de ar, e que não há provas de que Brady tenha participado. Não obstante, ele conclui dizendo que “é mais provável que não que Brady tinha uma ideia geral dos ilícitos”.

Como você pode partir de algo que você não tem provas, não tem como demonstrar como ocorreu, e dizer que é mais provável que não que alguém soubesse disso? Perdão pelo termo, mas não se consegue colocar nem um cachorro em um canil com esse nível de (ausência de) prova e argumentação.

tom-brady1
Tom Brady teve a imagem arranhada pela divulgação do Ted Wells Report.

Somos torcedores dos Patriots, não temos como negar isso. No entanto, nós do Patriotas tentamos atuar com o máximo de imparcialidade possível.

Caso houvesse nesse report alguma evidência concreta de que: a) os Patriots deliberadamente adulteraram as bolas; ou b) Fizeram isso para obter vantagem esportiva ou obtiveram vantagem esportiva; ou ainda c)Tom Brady estava envolvido ou sabia que estavam sendo praticados esses atos ilícitos; nós não teríamos problema algum em reconhecer isso.

Se fossem apresentadas provas, iríamos querer que os responsáveis fossem justamente punidos, pois teriam atentado contra a licitude do esporte que tanto amamos.

No entanto, não podemos nos conformar com o massacre da imagem do time com base em achismos, isso mesmo, achismos de uma investigação e dos que querem punições com base em que “é mais provável que não” que Brady soubesse.

O que aconteceu nessa investigação foi brilhantemente resumido por TJ Lang, jogador do Green Bay Packers que, em seu twitter, escreveu:

“Depois de 4 meses de extrema, detalhada investigação…New England pode ter, provavelmente, possivelmente, talvez esvaziado as bolas…tudo indica.”

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Este post tem 4 comentários

  1. Texto maravilhoso e esclarecedor! Orgulhosa demais!

  2. Texto perfeito ! mesmo se eu não fosse torcedora dos Patriots, acho que ninguém pode ser punido por um relatório tão inconclusivo. Acho sim que foi uma campanha para difamar os Patriots, encabeçada pelo GM dos Colts, cansado de perder vergonhosamente para Brady&cia, e prontamente abraçada pela midia sensacionalista, por “jornalistas” ligados a times rivais e por uma fraca e vergonhosa NFL que quis provar serviço depois de tantos vexames.

  3. Marcelo, parabéns e obrigado por ajudar a esclarecer o que poderia ser um mancha triste em uma brilhante temporada dos Patriots. Nós, aqui no Rio de Janeiro, pactuamos de tua torcida por New England e defendíamos a tese de que ainda que as bolas tivessem tanta influência, o placar do segundo tempo foi ainda mais elástico. Enfim, fica a certeza para as próximas temporadas de que incomodamos mais do que pensávamos, e temos que ter maiores cuidados…

    A acompanhar,

    Go Pats

  4. Quanto mais eu leio sobre todo esse caso, mais eu fico com a convicção sobre o que você disse: “O que ocorreu, de fato, foi uma operação montada pela NFL para tentar flagrar os Patriots utilizando bolas voluntariamente alteradas”.
    A princípio, na NFL não existia qualquer rigor ou preocupação quanto a pressão das bolas por parte das autoridades. Havia uma prática generalizada de ficar enchendo ou esvaziando as bolas de acordo com as preferências dos quarterbacks. Como alguns preferem bolas mais cheias e outros mais vazias, os próprios árbitros enchiam e esvaziavam as bolas aleatoriamente. Ou seja, vários times alteravam a pressão da bola, mas todo mundo fingia que não acontecia. Até que a NFL em conluio com o Colts resolveram pegar o Patriots no flagra.
    Qual seria o procedimento correto por parte da liga após a denúncia do Ryan Grigson? Tomar as providências necessárias para que não acontecesse nada de errado em jogo de tamanha importância. E fizeram ao contrário, armaram a situação para que o problema acontecesse. Além da denúncia no dia anterior ao jogo, no pré jogo a mesma foi repassada aos árbitros. Há de se supor então que os árbitros seriam rigorosos no protocolo de mensuração da pressão. E o que eles fizeram? Não anotaram nada. Só tem “achismos” do Walt Anderson. Isso é MUIIIIIITO suspeito. Três das quatros bolas do Colts estavam abaixo do limite mínimo de psi, e aposto que o pessoal do Colts sabendo da polêmica colocou as bolas exatamente em 13,5 psi. E a razão de estarem abaixo de 12,5 psi? Queda da pressão pelo clima. Até estourar esse escândalo, ninguém sabia dos efeitos do clima sobre a pressão da bola. Duvido. Todo mundo fingia que não sabia, e como a maioria das equipes prefere bolas com baixa pressão, melhor.
    Assim, eu acho que McNally e Jastremski realmente alteraram a pressão das bolas, mas como uma prática comum da liga, assim como o Brady devia ter algum conhecimento disso, apesar de não mandar diretamente para fazerem. Entretanto, creio que era uma prática comum na liga e que todos fechavam os olhos.
    Agora a dúvida é a razão do comissário da NFL ter conspirado contra o Patriots, principalmente com uma equipe como o Colts, que tem um dos piores proprietários (que vive em clínicas de reabilitação). Assim como o Ravens deve ter a sua participação na conspiração. Pois somente os técnicos do Ravens ex-Patriots foram chamados para prestar depoimentos sobre o seu período com o Patriots. Qual a razão do pessoal do Texans não ter sido chamado? Chamar o Dean Pees após ele ter sido humilhado pelo Brady, pois foram aconselhados a dar uma olhada no livro de regras (o conselho ao Haurbaugh se estende ao Pees). É tudo muito estranho. Eu suspeito que o Robert Kraft rompeu relações com o Goodell, por motivo desconhecido, antes desse episódio e não após ele. E a conspiração foi uma forma de reação a perda de apoio do Kraft, mas mesmo assim é tudo muito surreal.

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